Captação de Recursos

Emendas parlamentares para ONGs: como funcionam e como buscar com ética e transparência

Ruptura · 8 min de leitura
Planejamento de captação de recursos, representando a busca de emendas parlamentares por ONGs

Emenda parlamentar é a forma pela qual deputados, senadores e vereadores indicam, no orçamento público, para onde vai uma parte dos recursos. Uma ONG pode receber recursos de emenda quando o parlamentar indica um projeto da organização e o órgão público responsável celebra com ela uma parceria nos termos do Marco Regulatório das OSCs (Lei 13.019/2014). Nesse caso, a lei dispensa o chamamento público, mas não dispensa nada do resto: a organização precisa cumprir os requisitos de qualquer parceria, apresentar plano de trabalho, executar o projeto e prestar contas com total transparência. Emenda não é presente do parlamentar; é dinheiro público com regras.

Como funcionam as emendas individuais

No orçamento federal, a Constituição (artigo 166, § 9º, com redação da Emenda Constitucional 126/2022) prevê que as emendas individuais sejam aprovadas no limite de 2% da receita corrente líquida do exercício anterior, sendo metade desse percentual destinada a ações e serviços públicos de saúde. Desse limite, 1,55% cabe às emendas de deputados e 0,45% às de senadores. A execução dessas emendas é obrigatória nos termos da Constituição e da lei, o que as tornou uma fonte relevante de recursos.

As emendas individuais podem chegar a estados e municípios por transferência especial (conhecida como "emenda Pix") ou com finalidade definida. Essas modalidades transferem recursos para o ente público, não diretamente para a ONG. Para uma organização da sociedade civil, o caminho mais comum é a emenda indicada para um órgão federal, estadual ou municipal que, então, celebra a parceria com a OSC.

Estados e municípios também têm emendas parlamentares em seus orçamentos, com regras definidas nas constituições estaduais, leis orgânicas e leis orçamentárias locais. Consulte a assembleia legislativa ou a câmara municipal para saber como funcionam na sua região.

O que o MROSC diz sobre emendas

O artigo 29 da Lei 13.019/2014 estabelece que os termos de colaboração ou de fomento que envolvam recursos de emendas parlamentares às leis orçamentárias anuais serão celebrados sem chamamento público. Todo o restante continua valendo, incluindo:

  • Estatuto adequado (artigo 33): objetivos de relevância pública e social, destinação do patrimônio em caso de dissolução e escrituração contábil segundo as normas brasileiras. Veja estatuto de ONG;
  • Tempo mínimo de CNPJ: um, dois ou três anos, conforme a parceria seja municipal, distrital/estadual ou federal;
  • Experiência prévia no objeto ou em atividade semelhante e capacidade técnica e operacional;
  • Documentação (artigo 34): certidões de regularidade, estatuto registrado, ata de eleição da diretoria atual, relação de dirigentes e comprovação de funcionamento no endereço declarado;
  • Plano de trabalho com metas, atividades, cronograma e orçamento;
  • Prestação de contas de acordo com o termo assinado.

Se você ainda não conhece o MROSC, comece por o que é o Marco Regulatório das OSCs.

Transparência: a exigência cresceu

Nos últimos anos, o Supremo Tribunal Federal, no âmbito da ADPF 854 e de ações relacionadas, determinou medidas de transparência e rastreabilidade das emendas parlamentares, incluindo exigências dirigidas às entidades do terceiro setor que recebem esses recursos, como divulgar na internet os valores recebidos e sua aplicação. O Congresso também aprovou a Lei Complementar 210/2024 sobre o tema. Os detalhes vêm sendo ajustados por novas decisões e normas, então acompanhe as orientações do órgão concedente. Na prática, uma ONG que recebe emenda deve partir do princípio de que tudo será público, e manter uma página de transparência e prestação de contas atualizada com cada parceria, valor, objeto e resultado.

Passo a passo para buscar uma emenda

  1. Prepare a casa: CNPJ com o tempo mínimo exigido, certidões negativas em dia, estatuto adequado, diretoria com mandato vigente e contabilidade organizada. No âmbito federal, as parcerias são operadas na plataforma Transferegov.br; verifique o cadastro da organização.
  2. Tenha um projeto pronto: problema, público, metas, cronograma e orçamento detalhado. Projetos vagos não passam pela análise técnica do órgão, mesmo com a indicação do parlamentar.
  3. Entenda o calendário: as emendas são apresentadas durante a tramitação do projeto de lei orçamentária, no segundo semestre, para o ano seguinte. Procurar um gabinete às vésperas do prazo de indicação raramente funciona.
  4. Mapeie parlamentares com afinidade: quem atua na causa, na região ou em frentes parlamentares da área. Prefira construir relação com mais de um, de partidos diferentes, para não depender de uma única pessoa.
  5. Agende uma reunião com o gabinete e leve uma apresentação curta do projeto, com resultados anteriores e prestação de contas pública.
  6. Após a indicação, acompanhe com o órgão concedente a formalização: plano de trabalho, ajustes, documentação e assinatura do termo.
  7. Execute e preste contas com rigor. É o que garante novas parcerias, com o mesmo parlamentar ou com outros.

Aproximação ética: o que fazer e o que nunca fazer

Faça:

  • Convide parlamentares e equipes para conhecer o trabalho, como faria com qualquer financiador;
  • Registre e publique as parcerias e os resultados;
  • Trate a relação como institucional, com a organização, e não como favor pessoal de dirigentes.

Nunca faça:

  • Pagar ou prometer qualquer vantagem, comissão ou "taxa" a intermediários, assessores ou ao próprio parlamentar em troca da indicação;
  • Aceitar emenda condicionada a contratar determinado fornecedor ou pessoa;
  • Usar o projeto, as pessoas atendidas ou os eventos da organização para promoção eleitoral;
  • Aceitar recursos para algo que a organização não tem capacidade de executar.

Uma emenda mal executada pode gerar devolução de recursos, impedimento de novas parcerias e danos de reputação difíceis de reverter. Se surgir uma proposta estranha, recuse e registre.

Diversifique

Emendas podem financiar projetos importantes, mas dependem de ciclos políticos e orçamentários. Uma organização que vive só delas fica vulnerável. Combine com doadores individuais, empresas e editais, como explicamos em sustentabilidade financeira para ONGs.

Como a Ruptura ajuda

A Ruptura prepara projetos e apresentações claras para gabinetes e órgãos públicos e organiza a comunicação de transparência que esse tipo de recurso exige. Não fazemos intermediação política nem negociação de emendas. Veja a elaboração de projetos e o relatório anual e de impacto.

Conteúdo informativo. Regras de emendas e transparência mudam com frequência; confirme com o órgão concedente e com assessoria jurídica.

Perguntas frequentes

ONG pode receber emenda parlamentar?

Sim. O recurso de emenda é destinado a um órgão público, que celebra com a organização um termo de fomento ou de colaboração nos termos da Lei 13.019/2014.

Emenda parlamentar dispensa chamamento público?

Sim. O artigo 29 da Lei 13.019/2014 prevê que termos que envolvam recursos de emendas parlamentares sejam celebrados sem chamamento público, mas os demais requisitos da lei continuam valendo.

A ONG precisa divulgar os recursos de emenda que recebe?

Sim. Além das regras do termo de parceria, decisões recentes do STF reforçaram a obrigação de transparência das entidades que recebem recursos de emendas, incluindo a divulgação dos valores e de sua aplicação na internet.

Quando procurar um parlamentar para pedir emenda?

As emendas são apresentadas durante a tramitação do orçamento, no segundo semestre, para o ano seguinte. O ideal é construir a relação e ter o projeto pronto antes desse período.

Quer um projeto pronto para apresentar a gabinetes e órgãos públicos?

A Ruptura elabora projetos e materiais de transparência para sua organização.

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