Captar recursos internacionais é possível para ONGs brasileiras de qualquer porte, mas raramente funciona como "achar um edital em inglês e mandar o projeto". Fundações estrangeiras, agências de cooperação e programas de empresas globais pedem documentação traduzida, contabilidade organizada, histórico de resultados e uma conta preparada para receber dinheiro do exterior. A boa notícia é que boa parte dessa preparação também melhora a captação no Brasil. Este guia mostra quem financia, o que costuma ser exigido e como dar os primeiros passos.
Quem financia ONGs brasileiras a partir do exterior
As fontes internacionais são bem diferentes entre si, e cada uma pede uma abordagem própria:
- Fundações privadas e familiares: costumam ter áreas temáticas bem definidas (clima, direitos humanos, educação, saúde) e muitas trabalham só com convite. O primeiro contato normalmente é uma carta curta de apresentação, não o projeto completo;
- Agências de cooperação de governos estrangeiros e organismos multilaterais: publicam chamadas com regras detalhadas, valores maiores e exigências de gestão e prestação de contas mais pesadas;
- Embaixadas e consulados: alguns países mantêm fundos para pequenos projetos locais, com processos mais simples e valores menores. É uma boa porta de entrada para quem nunca recebeu recurso estrangeiro;
- Empresas multinacionais e suas fundações: muitas doam por plataformas globais de doação corporativa, como a Benevity, que exigem que a ONG passe por uma validação. Veja também como funciona a validação na Goodstack;
- Redes e fundos intermediários: organizações que recebem recursos de grandes financiadores e repassam a grupos locais, muitas vezes com chamadas em português ou espanhol.
O que os financiadores internacionais costumam exigir
Cada financiador tem suas regras, mas alguns pedidos aparecem quase sempre:
- Documentos institucionais traduzidos: estatuto, ata de eleição da diretoria, comprovante de inscrição no CNPJ e, às vezes, certidões. Ter versões em inglês (e em espanhol, se o foco for América Latina) economiza semanas;
- Demonstrações financeiras: balanço e demonstração de resultado dos últimos anos. Para valores maiores, muitos pedem auditoria independente;
- Relatório de atividades: o que a organização fez, para quantas pessoas e com quais resultados. Um bom relatório de atividades é um dos documentos mais usados nesse processo;
- Políticas de governança: código de conduta, política anticorrupção, política de proteção de crianças e adolescentes quando há atendimento a esse público, e regras de conflito de interesse. O post sobre governança em ONGs detalha o que cada uma faz;
- Equivalência e verificação: algumas fundações dos Estados Unidos precisam comprovar que a ONG estrangeira equivale a uma entidade sem fins lucrativos de lá, por meio de um processo de verificação próprio. Quando isso acontece, o financiador costuma explicar o caminho.
Conta, câmbio e prestação de contas
Receber recurso do exterior envolve uma operação de câmbio. Na prática, o dinheiro chega ao banco da ONG em moeda estrangeira e é convertido em reais, com registro da natureza da operação (doação, por exemplo). Antes de assinar qualquer acordo, vale resolver alguns pontos:
- Converse com o banco: confirme se a conta da organização recebe transferências internacionais, quais dados passar ao financiador (código SWIFT, IBAN ou equivalente, endereço da agência) e quais documentos o banco vai pedir para fechar o câmbio;
- Calcule os custos: tarifas, spread cambial e eventuais tributos reduzem o valor que chega. Alguns estados cobram ITCMD sobre doações, com regras e isenções próprias para entidades sem fins lucrativos. Confirme com o contador antes de montar o orçamento;
- Planeje a variação do câmbio: se o projeto foi orçado em dólar ou euro, uma queda da moeda estrangeira diminui o valor em reais. Pergunte ao financiador se o orçamento pode ser em reais e como ele trata a diferença cambial;
- Separe o recurso: uma conta ou um centro de custo exclusivo para o projeto facilita muito a prestação de contas;
- Entenda o formato do relatório: financiadores estrangeiros geralmente pedem relatórios narrativos e financeiros em inglês, com prazos fixos. Combine isso desde o início com quem cuida da contabilidade.
Como ler um edital em inglês ou espanhol
As chamadas internacionais usam um vocabulário próprio. Alguns termos que aparecem o tempo todo:
- Call for proposals / convocatoria: o edital em si;
- Letter of inquiry (LOI) ou concept note: uma apresentação curta da ideia, que vem antes do projeto completo. Muitas fundações só pedem o projeto se gostarem da LOI;
- Eligibility criteria: quem pode participar. Leia primeiro, porque elimina a maior parte das chamadas;
- Overhead ou indirect costs: o percentual do orçamento que pode cobrir custos administrativos da organização;
- Matching funds / co-funding: exigência de contrapartida, ou seja, parte do projeto bancada por outra fonte;
- Theory of change, outcomes e outputs: a lógica de transformação do projeto e a diferença entre o que se entrega (atividades, produtos) e o que muda na vida das pessoas. O post sobre teoria da mudança ajuda a montar essa parte.
Uma dica prática: escreva o projeto primeiro em português, com a lógica bem amarrada, e só depois traduza. Tradução automática ajuda no rascunho, mas o texto final precisa ser revisado por alguém fluente, de preferência que conheça o vocabulário de projetos sociais. Os princípios de um bom projeto para edital valem também aqui.
Por onde começar: um roteiro de 90 dias
- Mês 1, casa em ordem: reúna e traduza os documentos institucionais, organize as demonstrações financeiras dos últimos anos e revise o site para que tenha uma versão em inglês, mesmo que resumida;
- Mês 2, mapeamento: liste de 10 a 20 financiadores cuja área temática e região combinem com a sua causa. Olhe quem eles já apoiaram no Brasil, quais valores e com que frequência abrem chamadas;
- Mês 3, primeiros contatos: envie cartas de apresentação curtas para quem aceita contato espontâneo e inscreva-se em uma ou duas chamadas abertas que tenham bom encaixe.
Recursos internacionais costumam demorar meses entre o primeiro contato e o dinheiro na conta. Por isso eles devem entrar no plano de captação como uma aposta de médio prazo, e não como solução para um aperto de caixa. A diversificação de fontes, discutida em sustentabilidade financeira, continua sendo a melhor proteção.
Erros comuns
- Mandar o mesmo projeto, só traduzido, para todos os financiadores, sem adaptar à linguagem e às prioridades de cada um;
- Ignorar os critérios de elegibilidade e gastar semanas em chamadas para as quais a ONG nem se qualifica;
- Prometer resultados que a equipe não consegue medir. Defina indicadores de impacto realistas antes de escrever;
- Esquecer os custos de câmbio e tradução no orçamento;
- Não ter ninguém responsável pela relação com o financiador depois da aprovação. Relatórios atrasados fecham portas para renovações.
Como a Ruptura ajuda
A Ruptura apoia ONGs na parte de comunicação que pesa nessa conversa: apresentação institucional em mais de um idioma, site com versão em inglês, relatório de atividades e materiais que mostram o impacto com clareza. Também ajudamos a estruturar projetos e cartas de apresentação. Conheça o serviço de elaboração de projetos para editais e a apresentação institucional para captação.