Gestão

Governança em ONGs: estrutura, políticas, compliance e transparência

Ruptura · 8 min de leitura
Missão, visão e valores, representando a governança e a estrutura de decisão de uma ONG

Governança em ONGs é o conjunto de estruturas, regras e práticas que definem quem decide o quê, como as decisões são fiscalizadas e como a organização presta contas. Na prática, é o que garante que a ONG cumpra a missão, use bem o dinheiro e não dependa de uma única pessoa. Para financiadores, empresas e fundações, governança é um dos primeiros itens avaliados antes de qualquer parceria. A boa notícia: uma organização pequena não precisa de estrutura de grande empresa, mas precisa de órgãos que funcionem de verdade, algumas políticas escritas e transparência.

A estrutura básica: quem decide o quê

A estrutura de uma associação está prevista no Código Civil e detalhada no estatuto. Em geral, ela tem três peças:

Assembleia geral

É o órgão máximo, formado pelos associados. Pelo Código Civil, compete privativamente à assembleia destituir os administradores e alterar o estatuto. Também costuma eleger a diretoria e os conselhos e aprovar as contas anuais. Tudo o que ela decide precisa ficar registrado em ata.

Diretoria (ou conselho de administração)

É quem administra a organização no dia a dia: representa a ONG, assina contratos, movimenta contas e executa o que foi aprovado. Em organizações maiores, há uma separação entre um conselho deliberativo, que define a estratégia, e uma gestão executiva contratada, que executa.

Conselho fiscal

Fiscaliza as contas e emite parecer sobre o balanço antes da aprovação em assembleia. Para OSCIPs, a Lei nº 9.790/1999 exige um conselho fiscal ou órgão equivalente no estatuto. Mesmo quando não é obrigatório, é uma das estruturas que mais dão segurança a financiadores. Veja o guia de conselho fiscal em ONGs.

Muitas organizações também têm um conselho consultivo, sem poder de decisão, formado por pessoas que contribuem com conhecimento, rede de contatos e reputação. Ele pode ajudar muito na captação, como mostra o post sobre conselho consultivo que ajuda a captar.

Sinais de governança fraca

  • A mesma pessoa preside a diretoria, assina todos os cheques, aprova as próprias despesas e escolhe quem vai fiscalizá-la;
  • Assembleias que não acontecem ou que existem só no papel, com atas escritas depois;
  • Mandatos vencidos e diretoria sem eleição há anos;
  • Parentes de dirigentes contratados ou fornecendo serviços sem nenhuma regra ou registro;
  • Ninguém além do presidente sabe as senhas das contas, do site e das redes sociais;
  • Contas anuais aprovadas sem que os conselheiros tenham visto os números.

Esses problemas não significam má-fé, mas criam risco. E financiadores sabem disso.

Políticas que toda ONG deveria ter por escrito

Não precisam ser longas. Uma ou duas páginas cada, aprovadas pela diretoria ou pela assembleia:

  • Conflito de interesses: o que fazer quando um dirigente, conselheiro ou funcionário tem interesse pessoal em uma decisão (contratar um parente, comprar de uma empresa ligada a ele). Em geral, a pessoa declara o conflito e não participa da decisão;
  • Compras e contratações: a partir de que valor é preciso pedir orçamentos, quem aprova e como se registra;
  • Alçadas financeiras: quem pode autorizar pagamentos e até que valor, com dupla assinatura acima de certo limite;
  • Código de conduta: comportamento esperado de equipe, voluntários e dirigentes, inclusive canais para denúncias;
  • Proteção de crianças, adolescentes e pessoas vulneráveis: essencial para quem atende esses públicos;
  • Doações e parcerias: de quem a organização aceita ou não recursos, para proteger a reputação e a missão;
  • Proteção de dados: como a ONG trata dados de doadores, voluntários e atendidos. Veja LGPD para ONGs;
  • Uso de imagem e comunicação: quem fala pela organização e como usar imagens de atendidos. Veja autorização de uso de imagem.

Compliance: cumprir as regras e provar que cumpre

Compliance, no terceiro setor, significa manter a organização em dia com obrigações legais, contratuais e com as próprias políticas. O básico inclui:

  • Estatuto atualizado e registrado em cartório, com atas das eleições;
  • Certidões negativas em dia (federais, estaduais, municipais, FGTS e trabalhista);
  • Contabilidade feita por profissional, seguindo as normas para entidades sem fins lucrativos;
  • Obrigações acessórias entregues no prazo;
  • Prestação de contas de convênios, termos de parceria e editais dentro do prazo;
  • Contratos formais com funcionários, prestadores e voluntários (veja a Lei do Voluntariado).

Um calendário de obrigações compartilhado com a diretoria e o contador evita que uma certidão vencida derrube uma parceria às vésperas da assinatura.

Transparência: mostrar para fora

Governança que ninguém vê não gera confiança. A organização transparente publica no site, de forma fácil de encontrar:

  • Estatuto, composição da diretoria e dos conselhos;
  • Demonstrações financeiras anuais e, se houver, o parecer da auditoria;
  • Relatório anual de atividades. Veja como fazer o relatório de atividades;
  • Parcerias com o poder público, com valores e objeto;
  • Principais financiadores e parceiros, quando autorizado.

O post sobre transparência e prestação de contas detalha o que publicar.

Por que financiadores exigem governança

Quem financia está colocando dinheiro e reputação na organização. Por isso, fundações, empresas, agências de cooperação e o poder público perguntam:

  • O dinheiro vai ser bem usado? Controles internos, alçadas e auditoria respondem;
  • A organização sobrevive à saída do fundador? Órgãos que funcionam e sucessão planejada respondem;
  • Há risco de escândalo? Políticas de conflito de interesses, de proteção e de conduta respondem;
  • A empresa pode associar a marca à ONG? Áreas de compliance de empresas fazem diligência antes de patrocinar, e a governança é o primeiro filtro.

Em processos de captação internacional e com grandes empresas, é comum receber um questionário de diligência com dezenas de perguntas sobre esses temas. Ter as respostas prontas encurta o caminho.

Por onde começar

  1. Revise o estatuto e confira se os órgãos previstos existem e se os mandatos estão em dia;
  2. Faça a assembleia anual de verdade, com prestação de contas e ata;
  3. Escreva e aprove as políticas de conflito de interesses e de alçadas financeiras;
  4. Monte o calendário de obrigações com o contador;
  5. Crie a página de transparência no site;
  6. Planeje a renovação: convide novas pessoas para os conselhos e prepare sucessores.

Como a Ruptura ajuda

A Ruptura não substitui o contador nem o advogado, mas ajuda a mostrar a governança para quem financia: página de transparência no site, relatório anual, apresentação institucional e materiais para processos de diligência. Conheça o serviço de relatório anual e de impacto e a criação de sites para ONGs.

Perguntas frequentes

O que é governança em uma ONG?

É o conjunto de estruturas, regras e práticas que definem quem decide, como as decisões são fiscalizadas e como a organização presta contas.

ONG é obrigada a ter conselho fiscal?

Depende do estatuto e da qualificação. Para OSCIPs, a Lei 9.790/1999 exige conselho fiscal ou órgão equivalente. Mesmo quando não é obrigatório, ele dá segurança a financiadores.

Quais políticas uma ONG pequena deve ter?

Comece por conflito de interesses, alçadas financeiras e compras. Depois, código de conduta, proteção de pessoas vulneráveis, proteção de dados e aceitação de doações.

Por que financiadores pedem informações sobre governança?

Para avaliar se o dinheiro será bem usado, se a organização sobrevive a mudanças de liderança e se há risco à reputação de quem financia.

Quer mostrar a governança da sua ONG para financiadores?

A Ruptura cria a página de transparência, o relatório anual e a apresentação institucional da sua organização.

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